Por Que a Laca É Chamada de "japan" em Inglês? A Palavra, as Falsificações e Como Ela Difere da Chinesa

Todo mundo sabe que "china", com minúscula, significa porcelana em inglês. Menos gente repara em sua gêmea: durante um trecho da história inglesa, "japan", com minúscula, significava laca. Você ainda pode flagrá-la num anúncio de leilão — um armário "japanned" — ou numa etiqueta de museu. As duas palavras não são coincidência. São fósseis do mesmo acontecimento, desenterrados dos mesmos navios, e assim que você entende o porquê, muito do confuso vocabulário de loja de antiguidades de repente se alinha.

Uma palavra deixada para trás por uma febre de compras

No século XVII, os artigos de luxo do Leste Asiático despejaram-se sobre a Europa. Os navios portugueses tinham aberto a rota marítima no início dos anos 1500, e depois de 1602 a Companhia Holandesa das Índias Orientais (a VOC, então a maior empresa comercial da Terra) dominou o tráfego. Ao lado de especiarias, seda, chá e porcelana vinha a laca — reluzente, negra como azeviche, salpicada de ouro — e a Europa perdeu a cabeça por ela. A coisa era vendida como "japan wares" (mercadorias japonesas), e por volta de 1680 o inglês cunhou o verbo to japan: revestir algo com aquele brilho de laca. O Victoria and Albert Museum coloca o paralelo com clareza — na Grã-Bretanha o termo japan colou-se à laca "espelhando como china se referia à porcelana". Ambas eram artigos de coleção orientais de alto padrão, e ambas ficavam lado a lado nos mesmos gabinetes de curiosidades.

Ajuda enxergar as palavras como uma linha do tempo, porque cada uma tem data:

PalavraQuandoO que ela marca
Japan (o país)anos 1570O nome do lugar entra no inglês
"japan wares"século XVIIA febre pela importação de laca
to japan (verbo)anos 1680Laquear vira palavra de ação
A Treatise of Japaning and Varnishing1688O manual prático (abaixo)
japonaiserie1896O gosto por tudo que é japonês

Uma nota de rodapé bem arrumada: a palavra lacquer (laca) em si não tem relação. Ela percorreu uma estrada completamente diferente — do português lacre, do latim lacca, do árabe lakk, do persa lāk, do sânscrito lākṣā, o nome do inseto lac cuja resina produz a goma-laca. Então "laca" vem de um bicho e "japan" vem de um país, e nenhuma das duas, estranhamente, vem da árvore que de fato produz a coisa.

Por que a Europa teve que falsificar

Aqui está a pegadinha que a maioria das versões pula: a Europa não conseguia fazer laca de verdade, por mais que quisesse. O urushi genuíno é a seiva da Toxicodendron vernicifluum, uma árvore nativa do Leste Asiático, e a seiva crua endurece à medida que cura. Selada num barril para uma viagem de um ano contornando o Cabo, ela endurecia por completo muito antes de chegar a Amsterdã. A matéria-prima simplesmente não sobrevivia à viagem. (A química teimosa e faminta por umidade do urushi é toda a sua estranha história.)

Então a Europa fez a melhor coisa seguinte: imitou a aparência com materiais que tinha. Essa imitação é o japanning. Em vez de seiva de árvore, os artesãos usavam vernizes de resina — principalmente goma-laca (do inseto lac) e sandáraca (de um cipreste norte-africano) — dissolvidos em solvente, pincelados em vinte e cinco a trinta camadas e secos por evaporação e calor, e não num armário úmido. O resultado copiava lindamente o fundo preto espelhado e as imagens douradas, e as melhores peças conseguem enganar o olho; mas nunca tiveram a resistência quase indestrutível do urushi à água, ao ácido e ao calor. Era decoração, não armadura.

A febre até ganhou seu best-seller. Em 1688, em Oxford, John Stalker e George Parker publicaram A Treatise of Japaning and Varnishing — mais de cem desenhos "à imitação dos indianos" (o termo genérico da época para qualquer coisa oriental) além de receitas para os vernizes. Ele se tornou o livro de padrões do japanning inglês. Na França, o equivalente era o Vernis Martin, batizado com o nome dos irmãos que o aperfeiçoaram, e o metal preto japanned — bandejas, latas — mais tarde jorrou de oficinas como as de Pontypool, no País de Gales.

Há aqui um encaixe vertiginoso que vale saborear. A finíssima laca dourada do Japão era tão valorizada que parte da laca de exportação chinesa do século XVIII foi feita em preto e dourado para imitá-la — um estilo que, segundo o V&A, não era de fato típico da China. Depois a Europa imitou aquilo com o japanning. Uma cópia de uma cópia: a maki-e japonesa, imitada na China, imitada de novo na Europa.

A febre que devorou seus próprios tesouros

A fome tinha um lado destrutivo. A laca de verdade permaneceu escassa e cara, e em Paris os marchands-merciers — os negociantes de luxo que ditavam a moda — pegavam armários japoneses importados e biombos chineses de Coromandel e simplesmente os cortavam em pedaços, fatiando painéis para colar em novos móveis franceses. A consequência é discretamente trágica: pouquíssimos armários de laca japoneses sobrevivem intactos nas coleções francesas, porque a moda pela laca destruiu a laca.

O que era uma peça não retalhada sobrevive em objetos como o Cofre Mazarin (por volta de 1640–43), feito numa oficina de Kyoto associada à família Kōami e levado à Europa pela VOC — um registro da companhia de 1643 lista cofres de laca avaliados em 144 taéis cada um. Ele é denso de ouro polvilhado e embutido, e é uma de apenas um punhado de peças de exportação de altíssimo nível que restaram intactas. Essa densidade de ouro é a pista para a última pergunta.

Polvilhar versus entalhar

Se japan e china eram palavras gêmeas, a laca japonesa e a chinesa são ofícios gêmeos — mesma árvore, instintos opostos. O museu Chiossone, em Gênova, coloca-os lado a lado: a maki-e é "a técnica japonesa por excelência", enquanto a laca entalhada é "uma técnica tipicamente chinesa".

JapãoChina
AssinaturaMaki-e — ouro polvilhadoLaca entalhada (tsuishu / tihong 剔紅)
MétodoPintar em laca, espalhar pó de ouro por cimaConstruir dezenas de camadas e depois entalhar um relevo
InstintoAditivo — acrescentar metal para fazer luzSubtrativo — recortar para fazer sombra

O Japão acrescentava: desenhava em laca e polvilhava ouro sobre a superfície úmida, construindo imagens a partir da luz. A China subtraía: pintava camada após camada de laca, às vezes uma centena, depois entalhava um desenho em relevo a partir da pura espessura — o tsuishu vermelho-profundo e os biombos de Coromandel incisos e preenchidos com pigmento que a Europa importava aos navios. Até a resposta do Japão ao entalhe invertia a lógica: em vez de entalhar laca empilhada, os artesãos da Kamakura-bori entalhavam a madeira primeiro e laqueavam por cima.

A reviravolta mais satisfatória é que a própria China confirmou a divisão. Registros da era Ming reconhecem que a laca decorada com ouro se originou no Japão, e o imperador Yongzheng valorizava a laca japonesa importada sob seu próprio nome, yangqi. A distinção não foi inventada por museus ocidentais; foi reconhecida do outro lado do mar, na cultura que deu ao Japão a árvore em primeiro lugar.

Então a pequena palavra em minúscula carrega uma quantidade surpreendente de coisas. "Japan" para laca não é uma esquisitice de grafia — é o resíduo de um século em que o verniz-seiva preto e dourado vindo do Oriente valia o esforço de retalhar armários, em que a Europa falsificava o que não conseguia importar e em que, de tudo que a Ásia mandou para o Ocidente, foi o ouro polvilhado do Japão que o Ocidente escolheu para dar nome ao ofício inteiro.